Uma reflexão sobre cinco mil anos de civilização, a ascensão do comunismo, as tragédias do período maoísta, a abertura econômica, a concentração de poder e os desafios de uma nação que se tornou indispensável à economia mundial sem adotar uma democracia multipartidária.
A história da China talvez seja uma das experiências mais extraordinárias e contraditórias da humanidade.
Estamos falando de uma civilização milenar que desenvolveu conhecimentos científicos, técnicas agrícolas, sistemas administrativos e redes comerciais muito antes da formação de diversos países que hoje ocupam posições importantes na economia mundial.
Uma sociedade que atravessou dinastias imperiais, invasões estrangeiras, guerras civis, revoluções e transformações políticas profundas.
Um país que, durante o século XX, enfrentou algumas das maiores tragédias humanas da história contemporânea, incluindo campanhas políticas e econômicas responsáveis por dezenas de milhões de mortes.
E que, poucas décadas depois, tornou-se uma das maiores potências industriais, comerciais e tecnológicas do planeta.
Em 2026, a China possui aproximadamente 1,4 bilhão de habitantes, mantém a segunda maior economia do mundo em valores nominais, lidera as exportações globais de mercadorias e ocupa posições estratégicas em setores como veículos elétricos, baterias, energia solar, telecomunicações e infraestrutura.
Segundo o Banco Mundial, desde o início das reformas econômicas de 1978, quase 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema.
É um resultado histórico de enorme importância.
Entretanto, essa transformação aconteceu sob o governo do mesmo Partido Comunista que chegou ao poder em 1949.
O país ampliou a participação das empresas privadas, recebeu investimentos estrangeiros, fortaleceu mecanismos de mercado e integrou-se profundamente ao comércio internacional.
Mas não realizou uma democratização política equivalente.
O Partido Comunista permanece no comando das principais instituições, não existe competição multipartidária efetiva pelo governo nacional e a liberdade de imprensa e de organização política continua submetida a fortes restrições.
E existe uma contradição histórica ainda mais profunda.
Antes de se transformar em potência econômica, a China atravessou experiências de planejamento centralizado e mobilização revolucionária que provocaram sofrimento em escala extraordinária.
Durante o Grande Salto Adiante, lançado por Mao Tsé-Tung em 1958, políticas destinadas a acelerar a industrialização e transformar radicalmente a agricultura contribuíram para uma fome devastadora.
As estimativas acadêmicas sobre a mortalidade excedente durante aquela tragédia variam, aproximadamente, entre 15 e 45 milhões de pessoas, dependendo das fontes e dos métodos utilizados.
Posteriormente, a Revolução Cultural desencadeou outra década de perseguições, violência política, destruição institucional e mortes.
Como um país que passou por acontecimentos tão devastadores conseguiu, décadas depois, transformar-se em uma potência econômica?
O que mudou entre a China que enfrentava fome e escassez e aquela que passou a fabricar produtos para praticamente todos os mercados do planeta?
Quanto desse desenvolvimento pode ser atribuído ao Estado, quanto à iniciativa privada e quanto à integração comercial?
E, principalmente, o que essa experiência ensina sobre os limites do poder político e sobre a diferença entre crescimento econômico e liberdade?
Responder exige compreender a China para além dos rótulos de capitalismo e comunismo.

Do Cataclismo Maoísta ao Pragmatismo de Deng Xiaoping:
As tentativas de aceleração forçada no Grande Salto Adiante (1958–1962) resultaram na maior fome da história moderna (cerca de 30 milhões de mortos), seguida pela década de expurgos da Revolução Cultural. A partir de 1978, a política de Reforma e Abertura restaurou a iniciativa camponesa, criou Zonas Econômicas Especiais e retirou quase 800 milhões de pessoas da pobreza extrema.
A Hiperpotência Industrial, a OMC e os Limites de 2026:
Segunda maior economia global e líder das exportações mundiais (US$ 3,77 trilhões em 2025), a China domina 70% da fabricação de carros elétricos, mais de 80% das baterias e 50 mil km de trens de alta velocidade. Contudo, enfrenta o envelhecimento demográfico acelerado (perda de 3,39 milhões de habitantes em 2025) e a dívida consolidada de governos locais próxima de 90% do PIB.
O Monopólio Político de Xi Jinping e as Balizas para o Brasil:
A prosperidade econômica não gerou abertura democrática: a China ocupa a 178ª posição em liberdade de imprensa (RSF), registra nota 9/100 na Freedom House e eliminou limites de mandato presidencial. Para o Brasil — cujo comércio bilateral atingiu US$ 171 bilhões em 2025 —, a lição fundamental é que o dinamismo produtivo é vital, mas não substitui a liberdade política e os freios e contrapesos da CF/88.
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Antes do comunismo: uma civilização construída ao longo de milênios
A China não começou com Mao Tsé-Tung.
Muito antes da Revolução Comunista de 1949, diferentes sociedades já haviam desenvolvido agricultura, metalurgia, escrita e formas complexas de organização política nos territórios que hoje compõem o país.
As regiões dos rios Amarelo e Yangtzé foram importantes centros de desenvolvimento agrícola e populacional.
As primeiras civilizações chinesas estabeleceram estruturas políticas, práticas religiosas e tradições culturais que influenciariam a formação do Estado ao longo dos séculos.
A dinastia Shang, que se desenvolveu aproximadamente entre 1600 e 1050 antes de Cristo, representa uma das primeiras dinastias chinesas comprovadas por registros arqueológicos e escritos.
Posteriormente, a dinastia Zhou contribuiu para consolidar concepções políticas e filosóficas que marcariam profundamente a história chinesa.
Foi nesse ambiente de transformações que viveram pensadores como Confúcio, cujas ideias sobre ordem social, educação, responsabilidade e organização política exerceriam influência durante mais de dois mil anos.
Em 221 antes de Cristo, Qin Shi Huang unificou diferentes Estados sob uma autoridade imperial centralizada.
A dinastia Qin estabeleceu padrões administrativos, monetários, de pesos e medidas e de escrita que ajudaram a consolidar a organização do território.
Nos séculos seguintes, as dinastias Han, Tang, Song, Yuan, Ming e Qing governaram diferentes configurações do império, alternando períodos de prosperidade, conflitos e reorganização.
A China desenvolveu tecnologias como o papel, a impressão, a bússola e a pólvora, além de importantes conhecimentos agrícolas, metalúrgicos e administrativos.
Também participou de extensas redes comerciais que conectavam a Ásia à Europa, ao Oriente Médio e à África.
Durante determinadas épocas, especialmente sob as dinastias Tang, Song e Qing, a China esteve entre os maiores centros econômicos e culturais do mundo.
Sua capacidade produtiva, suas cidades e sua organização administrativa impressionavam viajantes e comerciantes estrangeiros.
Portanto, o crescimento econômico observado nas últimas décadas não representa o nascimento de uma sociedade que anteriormente nada produzia.
Representa também o retorno de uma civilização historicamente importante a uma posição central na economia internacional.
E essa distinção é fundamental.
A ascensão chinesa não pode ser explicada apenas pelo comunismo, assim como sua história não pode ser resumida aos acontecimentos posteriores a 1949.
A China possui tradições comerciais, produtivas e administrativas muito anteriores à criação do Partido Comunista.
Mas sua trajetória moderna seria profundamente alterada pelos conflitos que começaram a atingir o império no século XIX.
O século das humilhações: como uma potência histórica perdeu sua posição
Durante parte do século XIX, a China enfrentou pressões internas e externas que enfraqueceram profundamente sua organização imperial.
O crescimento do comércio europeu, as disputas por mercados e o tráfico de ópio provocaram conflitos que alteraram as relações entre a China e as potências ocidentais.
A Primeira Guerra do Ópio, entre 1839 e 1842, terminou com a derrota chinesa diante do Reino Unido.
O Tratado de Nanquim impôs concessões comerciais, indenizações e a transferência de Hong Kong para os britânicos.
A Segunda Guerra do Ópio, entre 1856 e 1860, ampliou essas imposições.
Outras potências passaram a obter privilégios comerciais e diplomáticos que restringiam a soberania chinesa.
Ao mesmo tempo, o império enfrentava grandes rebeliões internas, como a Revolta Taiping, que provocou milhões de mortes durante a segunda metade do século XIX.
A derrota diante do Japão na guerra de 1894–1895 também demonstrou a fragilidade militar e institucional do regime imperial.
Esses acontecimentos seriam posteriormente incorporados à narrativa histórica chinesa como parte de um período de humilhação nacional.
É importante compreender esse contexto porque ele continua influenciando a política externa e o discurso de seus governantes.
A defesa da soberania, da unidade territorial e da recuperação da posição internacional do país não surgiu com Xi Jinping.
São temas profundamente associados às experiências traumáticas dos séculos XIX e XX.
Em 1911, uma revolução derrubou a dinastia Qing, encerrando mais de dois mil anos de governo imperial.
No ano seguinte, foi proclamada a República da China.
Sun Yat-sen tornou-se uma das principais referências daquele movimento republicano.
Mas o fim do império não trouxe estabilidade imediata.
O território passou por disputas entre lideranças militares, conflitos regionais e uma crescente rivalidade entre diferentes projetos de reorganização nacional.
Foi nesse ambiente que o comunismo começou a ganhar influência.
O nascimento do Partido Comunista e a disputa pelo futuro da China
O Partido Comunista Chinês foi fundado em 1921, inspirado pela Revolução Russa de 1917 e pelas ideias marxistas que circulavam entre intelectuais e movimentos políticos.
Naquele momento, a China enfrentava dificuldades profundas para consolidar um Estado nacional unificado.
O Partido Nacionalista, conhecido como Kuomintang, defendia um projeto de reorganização republicana e reunificação territorial.
Comunistas e nacionalistas chegaram a colaborar em determinados períodos, mas posteriormente se tornaram adversários em uma longa disputa pelo poder.
Mao Tsé-Tung ganhou importância dentro do Partido Comunista ao defender uma estratégia revolucionária baseada principalmente na mobilização camponesa.
Essa característica diferenciava o movimento chinês de interpretações marxistas que atribuíam protagonismo central ao operariado industrial.
A China possuía uma população majoritariamente rural, e a capacidade de mobilizar agricultores tornou-se decisiva para o crescimento do movimento comunista.
A rivalidade entre comunistas e nacionalistas foi interrompida parcialmente diante de uma ameaça externa ainda maior.
Em 1937, a invasão japonesa desencadeou uma guerra devastadora.
Milhões de chineses morreram durante o conflito, que incluiu massacres, deslocamentos populacionais, destruição de cidades e enormes prejuízos econômicos.
A guerra contra o Japão terminou em 1945, com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial.
Mas a paz durou pouco.
A guerra civil entre comunistas e nacionalistas voltou a se intensificar.
As forças comunistas conseguiram ampliar seu controle territorial, enquanto o governo nacionalista de Chiang Kai-shek enfrentava dificuldades militares, econômicas e políticas.
Em 1º de outubro de 1949, Mao proclamou a República Popular da China, em Pequim.
O governo nacionalista retirou-se para Taiwan, onde continuou existindo sob o nome de República da China.
Essa divisão permanece uma das principais questões geopolíticas do mundo contemporâneo.
A vitória comunista representou o fim de décadas de guerra civil e a consolidação de um novo Estado no território continental.
Mas também marcou o início de transformações políticas e econômicas que teriam consequências profundas para a população.
A revolução de 1949: a promessa de igualdade e a consolidação do poder
Quando Mao chegou ao poder, a China era um país marcado por pobreza, destruição, baixa escolaridade e graves dificuldades de infraestrutura.
O novo governo prometia reconstruir a nação, combater desigualdades e superar aquilo que considerava a exploração econômica herdada das estruturas anteriores.
A reforma agrária foi uma das primeiras grandes transformações.
Terras de grandes proprietários foram confiscadas e redistribuídas entre camponeses.
O governo também promoveu mudanças nas relações familiares, na legislação matrimonial e na posição social das mulheres.
A Lei do Casamento de 1950, por exemplo, estabeleceu novas garantias legais relacionadas ao casamento e ao divórcio.
Na educação e na saúde, ocorreram campanhas de alfabetização, vacinação e combate a doenças infecciosas.
Essas transformações contribuíram para avanços sociais importantes.
Entretanto, o processo revolucionário também foi acompanhado por campanhas de repressão, perseguição a supostos contrarrevolucionários e violência contra grupos classificados como inimigos de classe.
Durante as campanhas de reforma agrária e repressão política dos primeiros anos, centenas de milhares de pessoas foram executadas.
As estimativas históricas variam conforme as campanhas incluídas e os critérios utilizados, havendo levantamentos que apontam números superiores a um milhão de mortes quando se considera um conjunto mais amplo de episódios.
Muitos dos atingidos foram classificados como proprietários exploradores, opositores políticos ou representantes da antiga ordem social.
É fundamental reconhecer que a redistribuição de terras e as transformações sociais não exigiam necessariamente execuções e perseguições políticas.
Mas, na organização revolucionária maoísta, o conflito de classes foi transformado em instrumento de mobilização e repressão.
O novo Estado passou a concentrar poder nas estruturas do Partido Comunista.
A oposição política foi eliminada como alternativa efetiva de governo.
A imprensa e as organizações sociais passaram a funcionar sob controle político.
Ao mesmo tempo, empresas privadas foram gradualmente nacionalizadas, e a economia passou a seguir planos estatais.
A industrialização foi organizada com forte inspiração no modelo soviético.
O objetivo era transformar rapidamente uma sociedade agrária em uma potência industrial socialista.
Mas a busca por resultados extraordinários em prazos cada vez menores levaria a uma das maiores tragédias humanas do século XX.
A Proclamação da República Popular e a Nova Ordem Socialista:
Mao Tsé-Tung proclama a República Popular da China em Pequim após derrotar as forças nacionalistas do Kuomintang, que recuam para Taiwan. Início da reforma agrária radical, nacionalização de indústrias e adoção do modelo soviético de planejamento.
O Grande Salto Adiante e a Grande Fome:
Campanha de coletivização compulsória em comunas populares e metas irreais de produção de aço em fornos de quintal. O desastre agronômico, a requisição forçada de grãos e a censura institucional culminam em uma fome devastadora com cerca de 30 milhões de mortos excedentes.
A Revolução Cultural e a Década de Caos Político:
Mao mobiliza os Guardas Vermelhos contra supostos “inimigos de classe” e rivais dentro do Partido. Universidades são paralisadas, intelectuais e dirigentes (incluindo Deng Xiaoping) são perseguidos, com estimativas de 1 a 2 milhões de mortes e fratura social generalizada.
Deng Xiaoping e a Política de Reforma e Abertura:
O 3º Pleno do 11º Comitê Central consagra a guinada pragmática. Desmantelamento das comunas, concessão de direitos de uso da terra às famílias rurais, atração de investimentos estrangeiros e criação de Zonas Econômicas Especiais (Shenzhen).
O Massacre da Praça Tiananmen: Abertura Econômica sem Abertura Política:
Protestos estudantis e populares exigindo liberdade e combate à corrupção são violentamente reprimidos por tropas militares em 4 de junho em Pequim. O regime sela a diretriz de preservar o monopólio incondicional do Partido Comunista enquanto expande o mercado.
Entrada na OMC e Metamorfose em Fábrica do Mundo:
A adesão à Organização Mundial do Comércio integra a China no centro das cadeias de suprimento globais. Quase 800 milhões de cidadãos saem da pobreza extrema, as exportações explodem e o país consolida-se como a segunda maior economia do planeta.
A Era Xi Jinping: Centralização do Poder, 15º Plano Quinquenal e Nova Bipolaridade:
Abolição dos limites de mandato presidencial em 2018 e confirmação do 3º mandato de Xi em 2022/2023. Aprovação do 15º Plano Quinquenal (2026–2030) com foco em autossuficiência tecnológica (chips, IA e energias limpas), em meio à crise imobiliária e ao envelhecimento demográfico.
O Grande Salto Adiante: a revolução econômica que terminou em fome e morte
Em 1958, Mao lançou uma campanha conhecida como Grande Salto Adiante.
A proposta era acelerar radicalmente o desenvolvimento chinês, aumentar a produção agrícola e industrial e transformar o país em uma potência econômica em poucos anos.
A ambição era extraordinária.
O governo pretendia demonstrar que a mobilização revolucionária de milhões de trabalhadores poderia superar os limites materiais da economia.
Grandes comunas populares foram criadas no campo.
Famílias perderam parte de sua autonomia produtiva, enquanto decisões sobre trabalho, produção e distribuição de alimentos passaram a ser tomadas coletivamente sob direção política.
Em diferentes regiões, moradores foram mobilizados para construir obras, trabalhar em projetos agrícolas e produzir aço em pequenos fornos improvisados.
Esses fornos ficaram conhecidos como fornos de quintal.
A ideia era aumentar rapidamente a produção siderúrgica utilizando a mobilização da população.
Entretanto, grande parte do material produzido tinha baixa qualidade ou pouca utilidade industrial.
Além disso, trabalhadores foram deslocados de atividades agrícolas para tarefas que não necessariamente aumentavam a produção de bens essenciais.
No campo, autoridades locais passaram a anunciar resultados extraordinários de colheitas.
Em muitos casos, os números eram inflados para atender às expectativas políticas.
Produções fictícias eram apresentadas como conquistas revolucionárias.
E essas informações falsas tinham consequências devastadoras.
O governo requisitava grandes quantidades de grãos com base em expectativas de produção que não correspondiam à realidade.
Parte dos alimentos era direcionada ao abastecimento urbano, à formação de estoques e a compromissos de exportação.
Enquanto isso, comunidades rurais passavam a enfrentar escassez crescente.
A situação foi agravada por decisões agronômicas equivocadas, desorganização produtiva, condições climáticas adversas e ausência de mecanismos políticos capazes de corrigir rapidamente os erros.
Em uma estrutura autoritária, autoridades locais tinham incentivos para apresentar resultados favoráveis, mesmo quando a situação real era grave.
Reconhecer o fracasso de determinada política poderia representar punições.
Questionar decisões superiores poderia ser interpretado como falta de compromisso com a revolução.
O resultado foi uma ruptura entre as informações recebidas pelo governo e as condições enfrentadas pela população.
Quando uma estrutura política pune quem revela problemas e recompensa quem apresenta resultados irreais, decisões administrativas podem deixar de responder à realidade.
Entre 1959 e 1961, prolongando-se em algumas regiões até 1962, a China enfrentou uma fome devastadora.
Milhões de pessoas morreram por desnutrição e doenças associadas à escassez de alimentos.
Pesquisas acadêmicas apontam estimativas de mortalidade excedente que variam aproximadamente entre 15 e 45 milhões de pessoas.
Parte importante da literatura demográfica trabalha com estimativas próximas de 30 milhões de mortes.
O número exato permanece desconhecido devido às limitações dos registros históricos e às diferentes metodologias utilizadas.
Mas existe amplo consenso acadêmico de que se tratou de uma das maiores tragédias de fome da história contemporânea.
É importante esclarecer que essas mortes não ocorreram todas por execuções diretas.
A maior parcela esteve associada à fome e às consequências sanitárias da desorganização agrícola e do abastecimento.
Também existiram episódios documentados de tortura, violência política, trabalhos forçados e mortes provocadas diretamente pela repressão.
A tragédia não pode ser explicada apenas por problemas climáticos.
Pesquisadores identificam nas políticas do Grande Salto Adiante, especialmente na coletivização coercitiva, nas metas irreais e na requisição excessiva de alimentos, fatores centrais para compreender sua dimensão.
Uma política apresentada como caminho para acelerar a prosperidade terminou contribuindo para a morte de dezenas de milhões de pessoas que deveriam ser beneficiadas por ela.
É difícil encontrar uma contradição mais profunda entre intenção declarada e resultado humano.
Imagine comunidades inteiras enfrentando a falta de alimentos enquanto relatórios oficiais continuavam anunciando grandes conquistas produtivas.
Famílias perdendo filhos, pais e avós enquanto decisões econômicas eram mantidas por razões ideológicas e políticas.
A fome chinesa revela os riscos de uma concentração de poder na qual decisões equivocadas podem continuar sendo executadas mesmo quando seus efeitos se tornam devastadores.
Quando faltam imprensa independente, fiscalização e mecanismos de contestação, a população possui menos instrumentos para tornar públicos os problemas e exigir mudanças.
Essa é uma das lições institucionais mais importantes de toda a experiência chinesa.
Os números da tragédia e a responsabilidade histórica
O debate sobre quantas pessoas morreram durante a Grande Fome permanece aberto na pesquisa histórica.
Alguns levantamentos demográficos apresentam estimativas próximas de 16,5 milhões de mortes excedentes.
Outros trabalham com aproximadamente 23 a 30 milhões.
Há estudos que apontam números próximos de 40 milhões ou superiores.
A amplitude das estimativas decorre de diferenças nos registros disponíveis, nos métodos de reconstrução populacional e nos períodos considerados.
Também é fundamental não confundir mortes excedentes com nascimentos que deixaram de ocorrer em razão da crise.
Os nascimentos perdidos ou adiados representam outro indicador demográfico e não devem ser simplesmente somados às mortes para produzir uma contagem de vítimas fatais.
Da mesma forma, as mortes relacionadas ao Grande Salto Adiante não devem ser confundidas com aquelas provocadas pela Revolução Cultural, iniciada anos depois.
São acontecimentos historicamente distintos, embora ambos tenham ocorrido durante o governo de Mao.
A responsabilidade pelas decisões políticas do Grande Salto Adiante também precisa ser compreendida dentro da estrutura do regime.
Mao exerceu papel decisivo na formulação e promoção da campanha.
Outras autoridades participaram de sua execução, enquanto estruturas administrativas locais contribuíram para a manutenção de políticas que agravaram a fome.
A tragédia não pode ser compreendida apenas como resultado da vontade de uma pessoa.
Mas também não deve ser apresentada como um desastre natural inevitável.
A existência de milhões de mortos exige reconhecer que decisões políticas, estruturas de poder e ausência de correção institucional contribuíram decisivamente para o resultado.
A Revolução Cultural: quando o próprio passado se tornou um inimigo
Depois do fracasso do Grande Salto Adiante, Mao enfrentou questionamentos dentro das estruturas do Partido Comunista.
Setores da liderança defenderam ajustes econômicos e medidas destinadas a recuperar a produção agrícola e industrial.
Mas, em 1966, Mao iniciou uma nova campanha que transformaria profundamente a sociedade chinesa.
Foi o início da Grande Revolução Cultural Proletária.
O objetivo declarado era combater influências burguesas, preservar a pureza revolucionária e impedir aquilo que Mao considerava uma restauração capitalista.
Na prática, a campanha também funcionou como instrumento de reorganização do poder e enfrentamento de adversários dentro do próprio partido.
Milhões de jovens foram mobilizados em organizações conhecidas como Guardas Vermelhos.
Professores, intelectuais, funcionários públicos, dirigentes políticos e cidadãos comuns passaram a ser denunciados por supostas posições contrarrevolucionárias.
Escolas e universidades foram profundamente afetadas.
Livros, documentos, objetos religiosos e elementos do patrimônio cultural foram destruídos.
Pessoas eram submetidas a sessões públicas de humilhação, agressões e perseguições.
Famílias foram separadas.
Autoridades consideradas adversárias foram afastadas, presas ou submetidas a punições.
O próprio Deng Xiaoping, que posteriormente conduziria as reformas econômicas, foi perseguido durante esse período.
A Revolução Cultural durou aproximadamente uma década, até a morte de Mao, em 1976.
Pesquisas acadêmicas apresentam diferentes estimativas sobre o número de mortos.
Um estudo de Andrew Walder e Yang Su, publicado na revista acadêmica The China Quarterly, estimou entre 750 mil e 1,5 milhão de mortes no meio rural, além de milhões de pessoas submetidas a perseguições.
Outros levantamentos nacionais situam a mortalidade em uma faixa próxima de um a dois milhões, dependendo dos critérios adotados.
Dezenas de milhões de pessoas sofreram diferentes formas de perseguição política.
É importante não reduzir todas essas experiências ao mesmo tipo de violência.
Houve execuções, agressões, prisões, deslocamentos, perseguições profissionais e outras formas de coerção.
Mas o conjunto revela a dimensão extraordinária da desorganização política e social produzida pela campanha.
Uma revolução que afirmava construir uma sociedade melhor passou a tratar professores, estudantes, trabalhadores e até antigos revolucionários como inimigos que precisavam ser combatidos.
O resultado foi uma década de instabilidade que comprometeu instituições, educação, produção científica e relações sociais.
A experiência revelou como a mobilização ideológica pode produzir violência quando passa a considerar determinadas opiniões ou origens sociais como justificativas para retirar direitos fundamentais.
O legado de Mao: conquistas sociais e tragédias que não podem ser apagadas
A avaliação histórica de Mao Tsé-Tung exige reconhecer diferentes dimensões de seu governo.
A China saiu de décadas de guerra civil e invasão estrangeira, consolidou um Estado nacional e realizou investimentos em alfabetização, vacinação e serviços básicos de saúde.
Entre aproximadamente 1950 e 1980, a expectativa de vida aumentou de cerca de 35 a 40 anos para mais de 65 anos.
Estudos acadêmicos associam parte importante dessa melhoria à expansão da escolarização, a campanhas sanitárias e ao combate a doenças infecciosas.
A educação básica também se expandiu consideravelmente.
Esses avanços existiram.
Mas ocorreram ao mesmo tempo que campanhas políticas produziram mortes em massa, perseguições e graves violações de direitos humanos.
Seria incorreto apagar os avanços sociais apenas porque foram realizados sob um governo autoritário.
Entretanto, também seria injustificável utilizar esses avanços para relativizar as tragédias do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural.
O reconhecimento de conquistas sociais não pode transformar milhões de mortes em um detalhe secundário da história.
Um governo precisa ser avaliado tanto por aquilo que conseguiu construir quanto pelos danos provocados por suas decisões.
E a experiência maoísta demonstra por que a concentração extrema de poder exige mecanismos efetivos de fiscalização e correção.
Quando Mao morreu, em 9 de setembro de 1976, a China ainda enfrentava problemas profundos de produtividade, renda e organização econômica.
Mas também estava prestes a iniciar uma transformação que modificaria radicalmente seu futuro.
Deng Xiaoping e a decisão de abandonar parte do modelo econômico anterior
Após a morte de Mao, o Partido Comunista passou por disputas internas sobre os rumos do país.
Deng Xiaoping consolidou gradualmente sua liderança e tornou-se a principal referência de uma nova orientação econômica.
Em dezembro de 1978, o governo iniciou um processo de reformas que alteraria profundamente a organização produtiva chinesa.
A proposta ficou conhecida como política de reforma e abertura.
O Partido Comunista não abandonou o controle político.
Também não renunciou oficialmente ao socialismo.
Mas passou a incorporar mecanismos de mercado, ampliar incentivos econômicos e criar condições para investimentos privados e estrangeiros.
A transformação começou principalmente na agricultura.
O sistema de comunas foi progressivamente substituído por formas de produção familiar com maior autonomia.
Os agricultores passaram a receber direitos de uso da terra e maior liberdade para organizar sua produção.
Também puderam comercializar parte dos excedentes e obter benefícios mais diretamente associados aos resultados alcançados.
É importante esclarecer que a terra não se tornou integralmente propriedade privada nos mesmos termos existentes em diferentes economias ocidentais.
A estrutura jurídica chinesa continuou preservando a propriedade coletiva ou estatal da terra.
Mas os direitos econômicos de utilização foram ampliados.
E isso mudou significativamente os incentivos produtivos.
A produção agrícola aumentou, enquanto a população rural passou a encontrar novas oportunidades de renda.
Na indústria, empresas começaram a receber maior autonomia, e novos negócios foram autorizados.
O governo também criou zonas econômicas especiais, com regras destinadas a atrair investimentos e estimular exportações.
Uma das experiências mais conhecidas ocorreu em Shenzhen, próxima de Hong Kong.
Uma região que antes possuía uma economia relativamente limitada transformou-se, nas décadas seguintes, em um importante centro industrial e tecnológico.
Outras cidades costeiras seguiram caminhos semelhantes.
A China começou a receber fábricas, tecnologia, capital e conhecimentos administrativos de empresas estrangeiras.
E sua participação no comércio mundial aumentou progressivamente.
A transformação foi conduzida dentro de um sistema político comunista, mas com mecanismos econômicos muito diferentes daqueles utilizados durante o Grande Salto Adiante.
A China não precisou abandonar o Partido Comunista para modificar sua economia. Mas precisou abandonar parte importante das práticas de planejamento centralizado que haviam limitado sua capacidade produtiva.
Essa diferença ajuda a compreender os resultados posteriores.
A importância do mercado, da iniciativa privada e dos investimentos estrangeiros
O crescimento chinês não foi resultado de uma única política.
A expansão da iniciativa privada, a abertura comercial, os investimentos públicos, a infraestrutura, a educação e o aproveitamento de uma enorme força de trabalho contribuíram para a transformação.
O governo também desempenhou papel estratégico na criação de zonas industriais, no financiamento de infraestrutura e na organização de setores considerados prioritários.
A política econômica combinou mecanismos de mercado com uma presença estatal expressiva.
Empresas públicas continuaram ocupando posições importantes em setores como energia, bancos, infraestrutura e telecomunicações.
Ao mesmo tempo, empresas privadas ganharam espaço na indústria, no comércio, na tecnologia e nos serviços.
O resultado não corresponde a uma economia capitalista liberal convencional.
Tampouco representa o planejamento centralizado rígido característico do período maoísta.
O próprio governo define o sistema como uma economia socialista de mercado.
Essa combinação é fundamental para compreender a China contemporânea.
Seria incorreto afirmar que todo o crescimento ocorreu simplesmente porque o Estado deixou de participar da economia.
Mas também seria difícil ignorar que a grande aceleração econômica coincidiu com reformas que ampliaram a autonomia produtiva, permitiram investimentos privados e integraram o país ao mercado internacional.
O Banco Mundial identifica nas reformas agrícolas, na expansão industrial, na abertura comercial e nos investimentos importantes fatores explicativos dessa transformação.
A China passou a produzir em escala crescente para consumidores de diferentes partes do planeta.
Sua mão de obra, sua infraestrutura e sua capacidade de organização industrial tornaram-se vantagens competitivas importantes.
Mas esse processo também envolveu dificuldades.
Milhões de trabalhadores migraram do campo para as cidades.
Jornadas extensas, baixos salários em determinados setores, condições precárias de trabalho e limitações à organização sindical fizeram parte da industrialização.
A expansão econômica também produziu desigualdades regionais e ambientais.
Portanto, a transformação chinesa foi extraordinária, mas não ocorreu sem custos sociais.
A entrada na Organização Mundial do Comércio e a transformação da economia mundial
Em dezembro de 2001, a China ingressou na Organização Mundial do Comércio (OMC).
A decisão marcou uma etapa decisiva de sua integração à economia internacional.
O país passou a participar de maneira ainda mais intensa das cadeias globais de produção.
Empresas estrangeiras ampliaram operações industriais, enquanto fabricantes chineses conquistaram mercados internacionais.
Produtos eletrônicos, máquinas, roupas, móveis, equipamentos e componentes industriais começaram a ser exportados em volumes cada vez maiores.
A China tornou-se uma peça central das cadeias produtivas internacionais.
Ao mesmo tempo, consumidores de muitos países passaram a ter acesso a produtos fabricados com custos menores.
Essa transformação contribuiu para reduzir preços de diversos bens e ampliar a oferta de produtos.
Mas também provocou impactos sobre indústrias de países que enfrentaram concorrência crescente das importações chinesas.
Determinadas regiões industriais sofreram perdas de empregos e dificuldades para competir.
Outras empresas passaram a depender de componentes e matérias-primas produzidos na China.
O país deixou de ser apenas um participante do comércio mundial.
Tornou-se parte essencial de seu funcionamento.
Segundo a Organização Mundial do Comércio, as exportações chinesas de mercadorias alcançaram aproximadamente US$ 3,77 trilhões em 2025.
A participação chinesa nas exportações globais de bens ficou em torno de 14% nos anos recentes.
Esse volume ajuda a compreender por que mudanças na economia chinesa afetam preços, investimentos e decisões industriais em diferentes continentes.
A China não apenas se desenvolveu utilizando o comércio internacional. Sua expansão também transformou a maneira como o mundo produz, distribui e consome mercadorias.
Pessoas Fora da Pobreza
Levantamento oficial do Banco Mundial desde 1978; o maior processo de elevação material de padrões de vida da história contemporânea.
Exportações Globais de Bens (2025)
Dados da OMC; a China concentra aproximadamente 14% de todas as exportações mundiais e mantém fluxo de US$ 171 bilhões com o Brasil.
Carros Elétricos e Baterias
Participação global da China na produção de automóveis elétricos (70%) e células de bateria (>80%) segundo a AIE em 2025.
Liberdade de Imprensa (RSF 2026)
Classificação no índice da Repórteres Sem Fronteiras; Freedom House 9/100 (“Não Livre”) e controle digital centralizado via Grande Firewall.
O maior processo de redução da pobreza extrema da história recente
Talvez o resultado social mais expressivo das reformas chinesas seja a redução da pobreza.
Segundo o Banco Mundial, desde 1978 quase 800 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema.
Durante décadas, milhões de famílias passaram a ter acesso a empregos industriais, melhores rendimentos, infraestrutura, educação e serviços públicos.
Cidades cresceram rapidamente.
Rodovias, ferrovias, portos e redes de energia foram construídos em grande escala.
A expansão da renda também permitiu o crescimento de uma classe média consumidora.
Em 2020, o governo chinês anunciou a eliminação da pobreza extrema segundo seus critérios nacionais.
O Banco Mundial reconhece o enorme avanço, mas utiliza também linhas internacionais mais elevadas para avaliar condições de vida.
Em 2024, por exemplo, aproximadamente 15,2% da população ainda vivia com menos de US$ 8,30 por dia, em valores ajustados pela paridade de poder de compra de 2021.
Portanto, a redução da pobreza extrema não significa que a pobreza em sentido amplo tenha desaparecido.
Também não significa que todos os chineses desfrutem do mesmo padrão de vida.
Existem diferenças importantes entre regiões urbanas e rurais, entre províncias costeiras e áreas do interior e entre diferentes grupos sociais.
Mas a dimensão da transformação permanece extraordinária.
Milhões de famílias passaram de condições de subsistência para uma participação mais ampla na economia.
E esse resultado precisa ser reconhecido independentemente de simpatias ou divergências ideológicas.
Uma análise histórica responsável não pode ignorar a tragédia humana do período maoísta, mas também não pode negar a enorme transformação social ocorrida após as reformas econômicas.
Ambos os acontecimentos fazem parte da trajetória chinesa.
A potência industrial e tecnológica do século XXI
Em 2026, a China ocupa posições estratégicas em setores que influenciam diretamente o futuro da economia mundial.
O país desenvolveu uma extensa infraestrutura ferroviária, incluindo a maior rede de trens de alta velocidade do planeta.
Ao final de 2025, aproximadamente 50 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade estavam em operação.
Sua indústria participa intensamente da produção de máquinas, equipamentos eletrônicos, baterias, veículos e componentes utilizados em diferentes setores.
Na transição energética, a capacidade industrial chinesa tornou-se especialmente relevante.
Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2025 a China respondeu por aproximadamente 70% da produção mundial de automóveis elétricos.
Também concentrou mais de 80% da produção de células de baterias para esses veículos.
Na energia solar, o país lidera a capacidade de produção de equipamentos e a instalação de novas usinas.
Esses resultados não surgiram espontaneamente.
Foram construídos por meio de investimentos privados, políticas industriais, financiamento estatal, expansão da infraestrutura, pesquisa tecnológica e integração com mercados internacionais.
Empresas chinesas tornaram-se importantes concorrentes em setores que anteriormente eram dominados por fabricantes europeus, americanos, japoneses e sul-coreanos.
A evolução também alcançou áreas como inteligência artificial, robótica, telecomunicações, comércio eletrônico e tecnologias espaciais.
Entretanto, é necessário observar que liderança industrial não significa superioridade em todas as tecnologias.
A China continua enfrentando restrições internacionais em determinadas áreas estratégicas, especialmente relacionadas a semicondutores avançados e equipamentos especializados.
A disputa tecnológica com os Estados Unidos tornou-se uma das principais características da economia mundial contemporânea.
A China deixou de ser apenas um centro de fabricação de produtos desenvolvidos por outros países e passou a disputar liderança em tecnologias fundamentais para a indústria do futuro.
Mas essa transformação também ampliou tensões comerciais, disputas geopolíticas e preocupações internacionais sobre dependência tecnológica.
O poder econômico não eliminou o monopólio político
A modernização econômica chinesa não foi acompanhada de uma transição para a democracia multipartidária.
O Partido Comunista continua controlando as principais estruturas políticas do país.
A Assembleia Popular Nacional exerce funções constitucionais e legislativas, mas a direção política fundamental permanece submetida ao partido.
Existem outros pequenos partidos legalmente reconhecidos, porém eles participam de um sistema de cooperação subordinado à liderança comunista, sem disputar a substituição do partido governante.
A imprensa e os meios digitais também estão sujeitos a mecanismos de censura e fiscalização.
O acesso a diversas plataformas internacionais é restringido pelo sistema de controle da internet frequentemente chamado de Grande Firewall.
Organizações internacionais documentam detenções de dissidentes, limitações à organização política independente, repressão a determinadas manifestações e restrições à liberdade religiosa.
Segundo o levantamento Freedom in the World 2026, da Freedom House, a China recebeu apenas 9 pontos em uma escala de 0 a 100 para direitos políticos e liberdades civis.
No ranking de liberdade de imprensa de 2026, da organização Repórteres Sem Fronteiras, ocupou a 178ª posição entre 180 países.
Esses resultados correspondem às avaliações de organizações independentes e precisam ser compreendidos segundo suas metodologias.
Mas são compatíveis com um conjunto amplo de relatórios sobre as restrições políticas existentes.
E aqui aparece uma contradição central.
O cidadão chinês possui oportunidades econômicas muito superiores às existentes durante o período maoísta, mas continua sem a possibilidade de escolher livremente outro partido para governar o país.
A China demonstra que crescimento econômico e autoritarismo político podem coexistir.
Mas essa coexistência não comprova que a ausência de democracia seja condição necessária para o desenvolvimento.
A experiência histórica de outras nações demonstra que economias avançadas também podem funcionar sob instituições democráticas.
A Praça da Paz Celestial: quando a abertura política encontrou os limites do regime
Um dos episódios mais importantes para compreender esses limites ocorreu em 1989.
Naquele ano, manifestações estudantis e populares reuniram milhares de pessoas na Praça Tiananmen, em Pequim, e em outras cidades.
Os protestos começaram após a morte de Hu Yaobang, dirigente associado a propostas reformistas.
Rapidamente, passaram a incluir reivindicações relacionadas ao combate à corrupção, à transparência e à ampliação de liberdades políticas.
A mobilização cresceu, envolvendo estudantes, trabalhadores e outros setores da sociedade.
Na noite de 3 para 4 de junho de 1989, forças militares chinesas reprimiram violentamente os protestos em Pequim.
Tanques e tropas foram utilizados, e manifestantes e civis morreram durante a operação.
O número exato de vítimas permanece controverso.
Estimativas independentes frequentemente apontam centenas ou milhares de mortos, enquanto os números oficiais divulgados à época eram muito inferiores.
É importante distinguir a repressão no conjunto da cidade dos acontecimentos especificamente dentro da praça, pois os episódios de violência ocorreram em diferentes locais de Pequim.
Posteriormente, o governo restringiu a divulgação de informações sobre o episódio.
O acontecimento tornou-se um símbolo internacional da distância entre abertura econômica e liberdade política.
A China havia iniciado reformas que ampliavam as possibilidades de participação no mercado, mas demonstrou que não permitiria uma transformação política que colocasse em risco o monopólio do Partido Comunista.
E essa orientação continuaria influenciando o funcionamento do regime nas décadas seguintes.
Xi Jinping e a nova concentração de poder
Xi Jinping chegou à liderança do Partido Comunista em 2012 e assumiu a Presidência da China em 2013.
Seu governo desenvolveu campanhas contra a corrupção, ampliou políticas industriais e fortaleceu a presença internacional do país.
A campanha anticorrupção atingiu numerosos dirigentes, funcionários públicos e integrantes das estruturas partidárias.
O combate à corrupção responde a um problema real, identificado inclusive pelas próprias autoridades chinesas.
Entretanto, críticos também apontam que os mecanismos utilizados ampliaram a centralização política e reduziram o espaço para divergências internas.
Em 2018, a China eliminou da Constituição o limite de dois mandatos consecutivos para a Presidência da República.
A mudança permitiu a continuidade de Xi no cargo para além do período anteriormente estabelecido.
Em 2022, ele conquistou um terceiro mandato como secretário-geral do Partido Comunista.
No ano seguinte, foi eleito para um terceiro mandato presidencial.
A transformação representou o enfraquecimento de uma prática de renovação da liderança que havia sido desenvolvida depois da morte de Mao.
É importante distinguir os cargos.
O limite formal eliminado em 2018 referia-se à Presidência do Estado. A liderança do Partido Comunista não possuía exatamente a mesma limitação constitucional.
Mesmo assim, a mudança ampliou as condições institucionais para a permanência prolongada de Xi no poder.
E aqui aparece um problema que ultrapassa a figura de qualquer dirigente específico.
Quanto mais o poder se concentra em uma liderança, maior se torna a importância de mecanismos independentes capazes de fiscalizar suas decisões e corrigir seus erros.
A experiência maoísta demonstra o que pode acontecer quando decisões políticas são protegidas de questionamentos efetivos.
Isso não significa que a China contemporânea esteja repetindo o Grande Salto Adiante.
Suas instituições econômicas, sua integração internacional e sua capacidade administrativa são profundamente diferentes.
Mas a história mostra por que a concentração política merece atenção mesmo quando os resultados econômicos são favoráveis.
Xinjiang, Tibete e Hong Kong: os limites da autonomia e dos direitos individuais
As tensões entre segurança estatal, unidade territorial e direitos individuais também aparecem em diferentes regiões sob administração chinesa.
Em Xinjiang, organizações internacionais documentaram graves violações de direitos humanos envolvendo integrantes da população uigur e outras comunidades predominantemente muçulmanas.
Em relatório publicado em agosto de 2022, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos concluiu que determinadas violações poderiam constituir crimes contra a humanidade.
O governo chinês rejeita essas acusações e apresenta suas políticas como medidas de combate ao terrorismo, ao extremismo e de promoção da estabilidade regional.
Entretanto, organizações internacionais continuam denunciando detenções arbitrárias, vigilância e restrições culturais e religiosas.
No Tibete, também existem críticas relacionadas à liberdade religiosa, à preservação da identidade cultural e ao ensino da língua tibetana.
Em maio de 2026, a Human Rights Watch publicou um estudo sobre políticas educacionais que ampliam a utilização obrigatória do mandarim nas escolas de regiões tibetanas.
O governo chinês sustenta que a promoção de uma língua nacional comum favorece integração e oportunidades educacionais.
Críticos argumentam que determinadas medidas enfraquecem o espaço para a preservação da identidade linguística e cultural das comunidades.
Em Hong Kong, a situação também sofreu mudanças profundas.
A região, que anteriormente possuía um sistema jurídico e político diferente do existente no continente, passou a enfrentar novas restrições após a adoção da Lei de Segurança Nacional de 2020.
Em 2024, outra legislação ampliou os instrumentos relacionados à segurança do Estado.
Organizações internacionais denunciam que essas normas restringem a liberdade de imprensa, a organização política e a atuação de grupos independentes.
As autoridades chinesas, por sua vez, afirmam que as medidas são necessárias para preservar a ordem e a segurança.
Esses acontecimentos demonstram que a análise da China não pode se limitar aos números do PIB.
A transformação econômica de uma sociedade não elimina a necessidade de examinar como o Estado trata aqueles que discordam de suas decisões ou procuram preservar identidades políticas, culturais e religiosas próprias.
Taiwan: a divisão que permanece desde 1949
A disputa envolvendo Taiwan representa outra dimensão essencial da história chinesa.
Quando os comunistas venceram a guerra civil em 1949, o governo nacionalista retirou-se para a ilha.
Desde então, a República Popular da China governa o território continental, enquanto Taiwan mantém um governo próprio.
Pequim considera Taiwan parte de seu território e defende sua reunificação com o continente.
As autoridades chinesas afirmam preferir uma solução pacífica, mas não renunciam à possibilidade de utilizar a força.
Taiwan, por sua vez, desenvolveu instituições próprias e possui uma população que participa de eleições competitivas.
É importante reconhecer que Taiwan também passou por um longo período autoritário após 1949.
A lei marcial permaneceu em vigor até 1987.
Posteriormente, ocorreram reformas democráticas que culminaram nas primeiras eleições presidenciais diretas em 1996.
Hoje, a ilha possui uma economia avançada e desempenha papel fundamental na produção mundial de semicondutores.
A comparação é especialmente interessante.
De um lado, a China continental, governada pelo Partido Comunista e economicamente transformada por reformas de mercado.
Do outro, Taiwan, que realizou uma transição democrática mantendo uma economia de mercado.
As duas trajetórias possuem contextos históricos e dimensões territoriais muito diferentes, portanto não podem ser tratadas como um experimento perfeitamente controlado.
Mas demonstram que sociedades de herança cultural chinesa podem desenvolver modelos políticos distintos.
A tensão entre Pequim e Taiwan também representa um importante risco geopolítico.
Um conflito poderia afetar cadeias produtivas, comércio internacional, tecnologia e segurança regional.
Em um mundo profundamente dependente de produtos industriais chineses e de semicondutores fabricados em Taiwan, as consequências econômicas ultrapassariam o território asiático.
A política do filho único e o envelhecimento da população
Outra decisão de longo prazo que merece análise foi a política do filho único.
Introduzida a partir de 1979, com exceções em diferentes regiões e grupos populacionais, a medida procurava reduzir o crescimento demográfico.
O governo argumentava que a limitação dos nascimentos contribuiria para melhorar as condições econômicas e facilitar o planejamento dos recursos públicos.
A política foi acompanhada por restrições legais, multas e, em determinados contextos, práticas coercitivas.
Ao longo das décadas, contribuiu para mudanças profundas na estrutura familiar e demográfica.
Entretanto, a redução da fecundidade chinesa também foi influenciada pela urbanização, pela educação, pela elevação dos custos de criação dos filhos e por transformações sociais que ocorreram em outros países.
Portanto, não seria correto atribuir toda a queda dos nascimentos exclusivamente à política estatal.
Em 2015, o governo decidiu substituí-la por uma política que permitia dois filhos.
Em 2021, autorizou até três filhos por casal.
Mas a mudança não produziu uma recuperação sustentada dos nascimentos.
Em 2025, segundo a agência oficial de estatísticas da China, nasceram aproximadamente 7,92 milhões de crianças, enquanto ocorreram 11,31 milhões de mortes.
A população diminuiu em cerca de 3,39 milhões de pessoas, encerrando o ano em aproximadamente 1,405 bilhão de habitantes.
Ainda segundo os dados oficiais, 23% da população possuía 60 anos ou mais.
Esses números revelam um desafio extraordinário.
A China precisará sustentar seu sistema previdenciário, os serviços de saúde e sua capacidade produtiva em uma sociedade com proporção crescente de idosos.
O envelhecimento poderá pressionar as finanças públicas, reduzir a oferta de trabalhadores e exigir maior produtividade.
Uma política populacional que durante décadas procurou limitar os nascimentos passou a ser substituída por iniciativas destinadas a incentivar as famílias a terem mais filhos.
A transformação demonstra como decisões estatais profundas podem produzir efeitos que ultrapassam muitas gerações.
A China de 2026: uma potência diante de novos problemas
Em outubro de 2026, a China continua apresentando uma economia de enorme escala e capacidade industrial.
Segundo a agência oficial de estatísticas, o PIB cresceu 4,6% nos primeiros nove meses do ano, em comparação com o mesmo período de 2025.
No terceiro trimestre, a expansão foi de 4,5%.
São números que demonstram crescimento relevante, embora inferiores às taxas extraordinárias registradas durante parte das décadas anteriores.
O Banco Mundial, em atualização de outubro de 2026, projetou expansão de 4,5% para o ano e de 4,3% para 2027.
Esses valores são projeções sujeitas a mudanças.
A economia enfrenta desafios importantes.
O setor imobiliário, que durante muitos anos recebeu grandes investimentos, passou a enfrentar dificuldades relacionadas ao endividamento, à demanda por imóveis e à situação financeira de empresas construtoras.
Governos locais também acumularam dívidas expressivas.
Segundo estudo do Fundo Monetário Internacional publicado em setembro de 2026, a dívida oficial dos governos locais somada à de seus veículos de financiamento correspondia a aproximadamente 90% do PIB ao final de 2025.
Esse percentual não deve ser confundido com a dívida total do governo chinês, pois se refere a um conjunto específico de obrigações locais e estruturas de financiamento.
O próprio FMI destaca que parte dessas dívidas está associada a investimentos em infraestrutura e ao funcionamento do mercado imobiliário.
A expansão produtiva financiada por crédito contribuiu para transformar o país, mas também produziu vulnerabilidades.
Ao mesmo tempo, o consumo doméstico apresenta dificuldades para assumir uma parcela maior do crescimento.
As famílias continuam enfrentando preocupações relacionadas à moradia, ao envelhecimento, à previdência e à segurança econômica.
O sistema de registro residencial, conhecido como hukou, também produz diferenças no acesso a determinados serviços públicos entre trabalhadores migrantes e residentes oficialmente registrados em diferentes cidades.
Outro desafio está na dependência das exportações.
A China possui capacidade industrial gigantesca, mas os mercados internacionais apresentam limites e disputas comerciais cada vez mais intensas.
Tarifas, restrições tecnológicas e preocupações com excesso de capacidade produtiva afetam suas relações com Estados Unidos, União Europeia e outros parceiros.
A China já não enfrenta o mesmo problema que tinha em 1958, quando pretendia acelerar artificialmente a industrialização. Agora, precisa administrar as consequências de décadas de crescimento acelerado, investimentos elevados e profunda integração internacional.
Energia, meio ambiente e a contradição de uma potência verde e dependente do carvão
A expansão industrial chinesa também trouxe consequências ambientais importantes.
O país tornou-se o maior emissor anual de gases de efeito estufa do planeta em valores absolutos.
Sua matriz energética continua utilizando grandes volumes de carvão, especialmente para geração de eletricidade e atividades industriais.
Ao mesmo tempo, a China lidera a instalação de sistemas de energia solar e ocupa posições importantes na produção de equipamentos utilizados na transição energética.
Essa combinação cria uma aparente contradição.
O mesmo país que produz grande quantidade de equipamentos destinados a reduzir emissões também depende fortemente de combustíveis fósseis.
Parte da explicação está na escala de sua economia.
Uma nação com população superior a 1,4 bilhão de habitantes e uma estrutura industrial gigantesca possui necessidades energéticas extraordinárias.
Outra parte decorre das escolhas realizadas para garantir segurança de abastecimento e reduzir riscos de interrupção da produção.
O governo estabeleceu metas de redução da intensidade de carbono e de expansão tecnológica para os próximos anos.
Mas sua capacidade de cumprir objetivos ambientais dependerá de investimentos, mudanças na matriz energética, eficiência produtiva e condições econômicas.
A experiência chinesa demonstra que desenvolvimento e sustentabilidade precisam ser discutidos conjuntamente.
Não basta medir quantas fábricas um país possui ou quanto seu PIB cresce. Também é necessário avaliar os custos ambientais, o consumo de recursos naturais e a capacidade de sustentar esse desenvolvimento no futuro.
O novo planejamento chinês e a disputa pela liderança tecnológica
Em março de 2026, a China aprovou seu 15º Plano Quinquenal, correspondente ao período de 2026 a 2030.
O documento estabelece prioridades para desenvolvimento econômico, infraestrutura, inovação e autonomia tecnológica.
Entre os setores considerados estratégicos estão semicondutores, inteligência artificial, robótica, biotecnologia, materiais avançados e novas tecnologias energéticas.
O objetivo é ampliar a capacidade nacional de desenvolver tecnologias essenciais e reduzir dependências externas.
Essa orientação reflete a transformação das disputas econômicas internacionais.
Durante décadas, a China cresceu principalmente ampliando sua capacidade de fabricar produtos para mercados internacionais.
Agora, procura controlar mais etapas do desenvolvimento tecnológico, da pesquisa científica e da produção de equipamentos estratégicos.
É uma mudança importante.
Mas também envolve riscos.
Políticas industriais podem contribuir para desenvolver setores que exigem investimentos elevados e coordenação de longo prazo.
Entretanto, subsídios excessivos, investimentos mal direcionados e proteção prolongada de empresas pouco eficientes podem produzir desperdícios e endividamento.
O próprio FMI aponta riscos relacionados a investimentos estatais financiados por dívida e a situações de excesso de produção em determinados setores.
O desafio será equilibrar objetivos estratégicos, eficiência econômica e sustentabilidade financeira.
O futuro da China dependerá não apenas de sua capacidade de investir em novas tecnologias, mas também de identificar quais investimentos produzem resultados sustentáveis e quais apenas transferem custos para a sociedade.
| Dimensão Analítica | Era Maoísta Ortodoxa (1949–1976) | Reforma & Abertura (1978–1992) | Globalização & OMC (1993–2012) | Era Xi Jinping (2013–2026) |
|---|---|---|---|---|
| Organização Política | Liderança carismática absoluta de Mao; campanhas de massa e expurgos constantes | Liderança coletiva sob Deng Xiaoping; institucionalização de limites de mandatos | Tecnocracia burocrática sob Jiang Zemin e Hu Jintao; transições decenais previsíveis | Fim do limite de mandatos presidenciais (2018); liderança centralizada de Xi em 3º mandato |
| Modelo Econômico | Planejamento centralizado rígido, comunas populares, fornos de quintal e isolamento | Descentralização agrícola, incentivos de mercado e Zonas Econômicas Especiais | Economia socialista de mercado, atração maciça de IED, entrada na OMC e expansão fabril | Autossuficiência tecnológica (15º Plano), hegemonia verde (EVs, solar) e regulação de big techs |
| Inserção Global | Aliança inicial com a URSS, seguida de cisão sino-soviética e aproximação com os EUA (1972) | Diretriz diplomática de Deng: “esconder o talento e esperar a hora certa” (perfil discreto) | Integração profunda às cadeias globais ocidentais e expansão comercial acelerada | Diplomacia assertiva (Nova Rota da Seda), tensão com os EUA em semicondutores e Taiwan |
| Balanço Social | Ganhos básicos de longevidade contrastados com 30 milhões de mortos na Grande Fome | Rápido aumento de renda camponesa e primeiros passos na redução da pobreza extrema | Retirada de centenas de milhões da pobreza extrema e explosão de uma vasta classe média urbana | Erradicação da pobreza extrema, liderança em alta tecnologia e crise demográfica/envelhecimento |
| Direitos & Liberdades | Perseguições políticas violentas, sessões de humilhação e campos de trabalho (laogai) | Recuperação institucional pós-Mao culminando no massacre da Praça Tiananmen (1989) | Maior liberdade econômica e individual na vida cotidiana sob controle político unipartidário | Posição 178º na RSF, Freedom House 9/100, vigilância digital algorítmica e restrições em Hong Kong/Xinjiang |
A China e o Brasil: uma relação econômica que não pode ser ignorada
A importância da China para o Brasil ultrapassa a discussão ideológica.
Ela é o principal parceiro comercial brasileiro.
Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China, baseado em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o comércio bilateral alcançou aproximadamente US$ 171 bilhões em 2025.
As exportações brasileiras para o mercado chinês somaram cerca de US$ 100 bilhões, enquanto as importações de produtos chineses alcançaram aproximadamente US$ 70,9 bilhões.
Essa relação envolve principalmente produtos agropecuários, minerais, combustíveis, máquinas, equipamentos e bens industriais.
O comércio oferece oportunidades importantes para produtores brasileiros.
Mas também produz dependências e desafios.
A economia chinesa influencia a demanda por commodities exportadas pelo Brasil.
Uma desaceleração chinesa pode afetar preços internacionais, receitas de exportação e investimentos.
Ao mesmo tempo, produtos industriais chineses concorrem com fabricantes nacionais em diversos setores.
A questão, portanto, não deveria ser simplesmente defender aproximação ou afastamento em relação à China.
Deveria ser compreender como o Brasil pode aproveitar oportunidades comerciais, ampliar investimentos, agregar valor às exportações e preservar sua capacidade produtiva.
A relação econômica entre países não exige identidade de sistemas políticos.
Democracias e regimes autoritários mantêm relações comerciais em diferentes partes do mundo.
Mas essas relações precisam ser administradas com atenção aos interesses nacionais, à segurança econômica e às condições de concorrência.
A China é importante demais para o Brasil para ser analisada apenas por simpatias ou rejeições ideológicas.
Compreender seu funcionamento econômico e político é necessário para avaliar oportunidades e riscos concretos.
Quatro lições que a experiência chinesa oferece ao Brasil
A história chinesa é muito diferente da brasileira.
As dimensões populacionais, as estruturas políticas, as trajetórias históricas e as condições internacionais não são equivalentes.
Portanto, nenhuma experiência pode ser transferida automaticamente de um país para outro.
Entretanto, existem aprendizados importantes.
1. A concentração excessiva de poder pode transformar erros econômicos em tragédias humanas
1. A concentração excessiva de poder pode transformar erros econômicos em tragédias humanas.
O Grande Salto Adiante demonstra como políticas mal planejadas, informações distorcidas e ausência de mecanismos independentes de fiscalização contribuíram para uma catástrofe de enormes proporções.
A lição não está apenas na natureza ideológica da política econômica.
Está também na importância de permitir que decisões sejam questionadas, informações sejam verificadas e erros sejam corrigidos antes que produzam consequências irreversíveis.
2. Produzir riqueza e aumentar a produtividade são fundamentais para reduzir a pobreza
2. Produzir riqueza e aumentar a produtividade são fundamentais para reduzir a pobreza.
As reformas chinesas demonstram como incentivos econômicos, investimentos, infraestrutura, educação e integração comercial podem ampliar oportunidades.
A redução da pobreza extrema após 1978 representa um resultado social que não pode ser ignorado.
Isso não significa que políticas sociais sejam desnecessárias.
Significa que uma sociedade precisa combinar proteção social com capacidade produtiva sustentável.
3. Crescimento econômico não substitui liberdade política
3. Crescimento econômico não substitui liberdade política.
A China mostra que uma economia pode alcançar resultados extraordinários sob um sistema autoritário.
Mas isso não demonstra que o autoritarismo seja necessário para produzir crescimento.
Também não significa que o desenvolvimento econômico torne irrelevantes os direitos de expressão, organização e participação política.
A democracia precisa ser avaliada por suas próprias garantias institucionais, não apenas pelos resultados do PIB.
4. Nenhuma ideologia deveria impedir uma sociedade de corrigir seus próprios erros
4. Nenhuma ideologia deveria impedir uma sociedade de corrigir seus próprios erros.
A China modificou profundamente sua organização econômica depois de reconhecer as limitações de determinadas políticas anteriores.
Essa capacidade de adaptação contribuiu para seu desenvolvimento.
Em uma democracia, a possibilidade de mudança precisa existir também no campo político, permitindo que os cidadãos substituam governos e escolham projetos alternativos.
A continuidade de uma política deve depender de seus resultados e de sua legitimidade institucional, não apenas da necessidade de preservar uma interpretação ideológica.
- Liderança do Partido (Art. 1º): A emenda constitucional de 2018 inscreveu no corpo do artigo 1º que “a liderança do Partido Comunista da China é a característica definidora do socialismo com características chinesas”.
- Eliminação de Limites Temporais: Revogação do limite de dois mandatos consecutivos para Presidente e Vice-Presidente da República, permitindo a continuidade prolongada da liderança.
- Propriedade da Terra e Economia: Toda a terra urbana pertence ao Estado e a terra rural pertence a coletividades; a iniciativa privada é incentivada, mas sob primazia estratégica das estatais.
- Controle Informacional Estrito: Todos os órgãos de imprensa operam sob censura e o tráfego da rede é filtrado pelo Grande Firewall, impedindo meios de comunicação independentes.
- Pluralismo Político (Art. 1º, V): Princípio basilar indissolúvel que garante a concorrência democrática entre partidos de todas as correntes ideológicas pelo voto popular.
- Cláusula Pétrea Eleitoral (Art. 60, §4º, II): É vedada qualquer emenda que tente abolir o voto direto, secreto, universal e periódico e a alternância no comando do Estado.
- Livre Iniciativa e Propriedade (Arts. 5º e 170): Plena proteção à propriedade privada, à livre concorrência e aos contratos, delimitando a intervenção estatal ao papel regulador e supletivo.
- Liberdade de Expressão e Vedação à Censura (Arts. 5º e 220): É livre a manifestação do pensamento e expressamente proibida qualquer forma de censura prévia, política ou ideológica.
O Brasil corre o risco de seguir o caminho da China?
Essa pergunta precisa ser formulada com cuidado.
O Brasil possui uma Constituição que estabelece o pluralismo político, a separação dos Poderes, a propriedade privada, a livre iniciativa e direitos fundamentais.
Também reconhece direitos sociais e permite uma atuação relevante do Estado na economia.
Essas características não tornam o Brasil equivalente à China.
A existência de empresas públicas, políticas industriais ou programas de transferência de renda não significa, por si só, a implantação de um regime comunista.
Da mesma forma, ampliar investimentos privados ou defender mecanismos de mercado não significa necessariamente rejeitar políticas sociais.
A comparação histórica precisa se concentrar em aspectos concretos.
Quais instituições garantem fiscalização independente?
Existe liberdade para a imprensa investigar o governo?
A oposição pode organizar-se e disputar eleições em condições democráticas?
As decisões econômicas são avaliadas por dados confiáveis?
Os cidadãos possuem mecanismos para responsabilizar e substituir seus governantes?
Essas perguntas são relevantes para qualquer país.
Também é necessário reconhecer que a experiência chinesa não oferece uma resposta simples para o debate entre capitalismo e socialismo.
O crescimento ocorreu sob um partido comunista, mas foi impulsionado por reformas que ampliaram mecanismos de mercado e investimento privado.
Ao mesmo tempo, políticas públicas, infraestrutura e planejamento estatal desempenharam papéis importantes.
A conclusão histórica precisa respeitar essa complexidade.
O desenvolvimento chinês demonstra que a organização econômica real de um país importa mais para seus resultados do que o rótulo ideológico utilizado por seus governantes.
Mas também revela que a capacidade de produzir riqueza não resolve automaticamente a questão da liberdade política.
A China que foi destruída, reconstruída e transformada
A história chinesa reúne acontecimentos que não podem ser reduzidos a uma única interpretação.
Uma civilização milenar passou por períodos extraordinários de desenvolvimento e crises profundas.
No século XIX, perdeu parte de sua soberania diante de potências estrangeiras e enfrentou conflitos internos devastadores.
No século XX, atravessou guerras, revoluções e a consolidação de um regime comunista.
Sob Mao Tsé-Tung, realizou avanços em educação e saúde, mas também enfrentou campanhas de repressão e experiências econômicas responsáveis por milhões de mortes.
O Grande Salto Adiante tornou-se uma das maiores tragédias de fome da história contemporânea.
A Revolução Cultural produziu outra década de perseguições, violência e desorganização institucional.
Após 1978, o próprio Partido Comunista iniciou reformas que ampliaram mercados, investimentos e incentivos produtivos.
A China passou a integrar-se ao comércio mundial e desenvolveu uma capacidade industrial extraordinária.
Quase 800 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema.
Cidades se transformaram.
Infraestruturas gigantescas foram construídas.
Empresas chinesas passaram a disputar liderança em setores estratégicos.
Em 2026, o país ocupa uma posição central na economia internacional.
Mas o Partido Comunista continua monopolizando o poder político.
A imprensa permanece submetida a controle.
A oposição independente não possui condições de disputar livremente o governo nacional.
E a concentração de poder na liderança do partido voltou a crescer nas últimas décadas.
Esses acontecimentos fazem parte da mesma história.
Ignorar as conquistas econômicas chinesas seria substituir a análise por preconceito ideológico.
Mas utilizar essas conquistas para relativizar tragédias humanas ou justificar restrições às liberdades políticas também seria um erro.
A China demonstra que uma sociedade pode alcançar resultados econômicos extraordinários sem realizar uma transição democrática.
E demonstra também que o planejamento centralizado, quando associado a decisões políticas equivocadas e à ausência de fiscalização efetiva, pode produzir consequências devastadoras.
Por isso, a principal reflexão não deveria ser simplesmente perguntar se a China é comunista ou capitalista.
A pergunta mais importante é compreender quais decisões contribuíram para suas tragédias, quais reformas favoreceram seu desenvolvimento e quais problemas permanecem sem solução.
A China do Grande Salto Adiante e a China das reformas econômicas foram governadas pelo mesmo partido, mas produziram resultados profundamente diferentes porque adotaram políticas, incentivos e formas de organização econômica diferentes.
Essa distinção é fundamental.
Ela demonstra que a identidade ideológica de um governo, isoladamente, não explica tudo aquilo que acontece com uma sociedade.
É necessário examinar suas decisões concretas, seus mecanismos institucionais e seus resultados.
A história chinesa também mostra que o desenvolvimento econômico não deve ser confundido com a democratização do poder.
Um país pode produzir riqueza, construir infraestrutura e desenvolver tecnologia sem assegurar plenamente aos cidadãos o direito de escolher seus governantes.
E isso nos leva à reflexão final.
O Brasil não precisa reproduzir a história de qualquer outro país para aprender com ela.
Pode reconhecer o valor da produtividade, da inovação, do comércio e da capacidade de planejamento.
Pode estudar os erros do planejamento econômico excessivamente centralizado e os riscos de decisões tomadas sem fiscalização.
Pode preservar políticas sociais sem abandonar a responsabilidade econômica.
E pode compreender que a liberdade política precisa ser protegida independentemente da orientação ideológica de quem governa.
Porque prosperidade e liberdade não deveriam ser tratadas como conquistas incompatíveis.
Uma sociedade precisa criar condições para produzir riqueza, combater a pobreza e oferecer oportunidades.
Mas também precisa garantir que seus cidadãos possam fiscalizar, discordar e substituir aqueles que exercem o poder.
A China mostrou ao mundo o que pode acontecer quando decisões políticas equivocadas se tornam praticamente incontestáveis. Décadas depois, também demonstrou a força de reformas econômicas capazes de liberar produtividade, investimentos e oportunidades.
Sua história, portanto, não oferece uma resposta simplista.
Oferece um conjunto extraordinário de experiências sobre poder, economia, desenvolvimento e liberdade.
E talvez a principal lição esteja justamente em reconhecer que nenhum governo, nenhum partido e nenhuma ideologia deveria ser considerado infalível.
Porque o verdadeiro desenvolvimento de uma nação não deveria ser medido apenas pela riqueza que consegue produzir, mas também pela dignidade que assegura às pessoas e pela liberdade que concede a elas para decidir o próprio futuro.
Afinal, uma potência econômica pode transformar o mundo. Mas a grandeza de uma sociedade também depende de sua capacidade de reconhecer os erros do passado, proteger os direitos do presente e permitir que seu povo participe livremente da construção do futuro.
A presente análise editorial fundamenta-se estritamente em levantamentos estatísticos multilaterais, bases demográficas históricas e documentos oficiais:
- Banco Mundial: Relatórios especiais de desenvolvimento sobre a China (resgate de quase 800 milhões de pessoas da pobreza extrema desde 1978), Global Economic Prospects 2025/2026 e projeções de crescimento do PIB de 4,5% para 2026 e 4,3% para 2027.
- Fundo Monetário Internacional (FMI): Relatório da Consulta do Artigo IV com a China (Setembro de 2026), com análise da dívida consolidada dos governos locais e veículos de financiamento (LGFVs) correspondente a 90% do PIB.
- Agência Internacional de Energia (AIE): Global EV Outlook 2025/2026 e levantamentos de transição energética (participação chinesa de 70% na produção global de veículos elétricos e mais de 80% na produção de células de baterias).
- Organização Mundial do Comércio (OMC): Estatísticas de Comércio Internacional 2025/2026 (exportações de bens de US$ 3,77 trilhões e participação de ~14% nas exportações mundiais).
- National Bureau of Statistics of China (NBS): Dados demográficos oficiais de 2025/2026 (1,405 bilhão de habitantes, encolhimento populacional de 3,39 milhões de pessoas, 7,92 mi nascimentos e 23% da população com 60 anos ou mais).
- Andrew G. Walder & Yang Su (The China Quarterly): “The Cultural Revolution in the Countryside: Severe Rural Violence in Five Provinces”, com estimativas de mortalidade e perseguição política durante a Revolução Cultural (1966–1976).
- Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) & MDIC: Balança Comercial Bilateral Brasil-China 2025 (intercâmbio total de US$ 171 bilhões: US$ 100 bi em exportações brasileiras e US$ 70,9 bi em importações).
- Repórteres Sem Fronteiras (RSF) & Freedom House: Índice Mundial da Liberdade de Imprensa 2026 (China na 178ª posição) e Freedom in the World 2026 (pontuação 9/100, classificação “Não Livre”).
- Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH): Relatório de Avaliação sobre Preocupações de Direitos Humanos na Região Autônoma Uigur de Xinjiang (Agosto de 2022).
- Constituição da República Popular da China (1982 / Emendas de 2018) & 15º Plano Quinquenal (2026–2030): Dispositivos oficiais sobre o papel dirigente do Partido Comunista e metas de autossuficiência tecnológica.
Debate & Comentários
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